Tango petista

Marcelo Freixo em sua coluna na Folha de S.Paulo

29/09/2015

Um verso do poema “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira, traduz o melancólico esgotamento dos quase 13 anos da era petista: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.

Lula terminou as eleições de 2002 com um enorme capital político e a chance histórica de promover mudanças estruturais. Sua vitória não foi obra exclusiva do pacto com as elites política e econômica.

Ela também se deveu à mobilização de milhões de pessoas que clamavam por transformações.

Por isso, apesar dos acordos eleitorais, o futuro da gestão não estava determinado, mas em disputa. Foi ao longo do mandato que Lula trocou a possibilidade de transformação pela acomodação aos vícios da política tradicional.

Reconheço conquistas como o fortalecimento dos órgãos de investigação, a valorização do salário mínimo, o aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores e a redução da miséria. Entretanto, o PT não avançou nas reformas de base no sistema político, na educação, na saúde, na ampliação da participação social e nas questões agrária e indígena.

A Agenda Brasil, proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, como saída para a crise, é o episódio mais recente da agonia do governo.

Diante do risco de sofrer um golpe na Câmara, dirigida por Eduardo Cunha, Dilma apela a Renan e abraça uma agenda que representa um retrocesso histórico nos direitos sociais.

O resultado desse pragmatismo é a crescente negação da política e o empobrecimento do debate sobre democracia.

Os sonhos das transformações deram lugar ao pesadelo da corrupção. Enxergamos o país sob a ótica do escândalo, não das utopias possíveis.

O desencanto nos fez perder a capacidade de projetar o futuro: os indignados sabem mais o que não querem do que o que querem.

Sou contra o impeachment, pois ainda não há elementos que liguem Dilma às denúncias. A saída de uma presidente deve ser uma medida excepcional, tratada com cautela, para o bem da democracia.

A ética na política não é secundária, mas não pode ser tratada como problema exclusivamente comportamental.

É preciso criar mecanismos para combater a corrupção de forma estrutural, porque esta não é monopólio de um só partido. Isso não diminui a gravidade dos delitos e a desfaçatez dos argumentos que relativizam escândalos devido aos precedentes tucanos.

Paulo Freire dizia que quando não há mais sonho, só nos resta o cinismo.

No fim do poema de Bandeira, o paciente pergunta ao médico se há remédio para suas mazelas. A resposta é ironicamente sombria: “Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”. O tango é a trilha sonora do desencanto petista nestes tempos de Agenda Brasil.

Marcelo Freixo é professor de história e deputado estadual do Rio. Presidiu as CPIs das Milícias, em 2008, e do Tráfico de Armas e Munições, em 2011. Foi candidato a prefeito do Rio em 2012. Escreve às terças.

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