Ricardo Antunes: 2018 e seus rumos políticos

Parte da entrevista de Ricardo Antunes ao Correio Cidadania.

Correio da Cidadania: o que é possível vislumbrar para 2018 e, a seguir nesta toada, nos próximos tempos?

Ricardo Antunes: É o seguinte: a eleição de fato ainda não começou. Raras eleições tiveram nomes que apareciam no topo das intenções de voto muito antes e terminaram eleitos. Tem muita coisa, muita pedra no meio do caminho. Já indicamos que Lula se beneficia muito do nível de elevação do pauperismo que o governo Temer promove. No entanto, Lula já mostrou até onde é capaz de levar sua conciliação. E também já mostrou até onde dá pra chegar mesmo quando as coisas parecem dar certo. Repetir isso parece um pouco tragédia, tem algo de farsa, salpicada com comédia. As direitas intensificarão a devastação, de Alckmin a Meirelles, para não falar da aberração Bolsonaro. E, é bom lembrar, Trump também parecia somente aberração…

Existe ainda uma grande dificuldade das esquerdas em buscar alternativas junto aos movimentos populares, a suas militâncias. Talvez o exemplo mais forte hoje das lutas sociais seja o MTST. Há uma importante liderança que se consolida, com respaldo social e político. Mas há uma enorme dificuldade das esquerdas (para além do PT) em constituir possibilidades próprias. Falo do PSOL, PCB, PSTU e de pequenos grupos em seu entorno.

Não há dúvidas de que, dentre estes, o PSOL é o mais forte eleitoralmente e possui mais presença social. Mas aquela disposição de pensar o conjunto de forças sociais do trabalho, sindicatos, periferias, que pudesse desembocar num polo alternativo, ainda parece inexistir. É compreensível, mas uma pena. Porque se as esquerdas pensam demais na luta parlamentar, não conseguem pensar numa ação política radical cujo eixo não seja o parlamento ou a institucionalidade, mas as lutas sociais extraparlamentares e extrainstitucionais. Não adianta ganhar as eleições, como Lula, e se deixar fagocitar pelo esquema dominante, pelos interesses que de fato dominam.

Portanto, não adianta falar em “união das esquerdas” e impor seus nomes escolhidos a partir dos grupos majoritários de cada um destes partidos. O movimento deveria ser outro: buscar densidade nas lutas sociais, sindicais e políticas a partir das bases. E, a partir destes movimentos de massa, criar os canais necessários para que eles adquiram organicidade, estruturação e, aí sim, apresentá-los política e eleitoralmente, porém, com uma formulação de outro tipo, conquistada a partir das lutas populares, sindicais, das comunidades indígenas, dos negros, movimentos feministas, ambientalistas, LGBT, pela base e não pelas cúpulas. É positivo, dentro deste quadro difícil, o exercício iniciado pelo MTST e pelo Vamos.

O desafio é enorme, até porque a contrarrevolução preventiva é global, brasileira, latino-americana, como vimos na Argentina, em Honduras, na recente vitória eleitoral da direita ultraconservadora do Chile. Tem o Trump nos EUA, tem a direita na Áustria, a eleição da França onde um neoliberal perigoso apareceu como freio à ultradireita… E não preciso ir a Itália, Hungria, Polônia… Essa onda vai passar, mas está aí hoje e é forte.

Em 2010, 2012, estávamos numa era de rebeliões que não conseguiu se converter em era de revoluções. Agora vivemos a era de contrarrevoluções. Ela vai passar, mas as placas tectônicas estão batendo. E não sabemos que tipo de coisa sairá daí. É evidente que cresce a oposição nos EUA, o Bernie Sanders era um bom exemplo, cresce a oposição na Inglaterra através do Jeremy Corbyn, no Chile a esquerda próxima ao Partido Comunista e aliados atingiu 20% dos votos… Na própria França, Jean Luc Melenchon se mostrou eleitoralmente como uma alternativa à esquerda.

Vivemos uma nova fase, mais destrutiva, do ideário regressivo neoliberal, de completa hegemonia do capital financeiro. Nisto, a naturalização da miséria global é o empreendimento enfeixado pelas classes dominantes globais. Esta é o quadro, o cenário que os capitais querem construir.

Por isso hoje há um movimento pesadíssimo, como mostra com muita competência a Virgínia Fontes, de grupos empresariais que vão fazer “trabalho voluntário” em escolas públicas pra introjetar o vírus da ânsia por acumular desde a mais tenra idade. Lembrando um artigo genial do jovem Gramsci, “as escolas não podem ser incubadoras de pequenos monstros”. O voluntarismo empresarial nas escolas públicas é pra fazer das crianças “pequenos monstros”. E até na TV vemos gente mostrando como crianças devem aprender a poupar e a acumular desde cedo. É o que estamos vivendo, ainda que não será eterno. Logo entraremos novamente num período muito tenso e de muita confrontação.

Correio da Cidadania: Ainda sobre a esquerda e sua incapacidade de aglutinar um projeto de massas, há muita gente afinada a suas ideias fora desses partidos e grupos mais tradicionais, mas que não se aproxima, e não são apenas anarquistas. Não estaríamos diante de um momento onde elas estão um pouco atrasadas em alguns debates, aparecendo apenas reativamente e, em muitos casos, não se mostrando tão antissistêmica? 

Ricardo Antunes: Passa também por isso, diretamente. Se a maior parte do oxigênio das “esquerdas de esquerda” é, em última instância, destinado para ganhar o processo parlamentar e eleitoral, elas jogam no campo que Mészàros já considerava a “linha de menor resistência”. O boxeador mais forte chama o boxeador mais fraco pra lutar no campo dele. Os capitais chamam as oposições, inclusive de esquerda, a lutarem no campo onde o capital domina, isto é, o parlamento, as instituições burguesas.

A institucionalidade brasileira está em decomposição, nas três esferas. Mas há também, e é muito importante enfatizar, um mosaico de movimentos sociais, sindicais, das periferias, das comunidades indígenas, negros, LGBTs, feministas, ambientalistas… Mas essa miríade de descontentamentos deve se esforçar ao máximo para buscar as interconexões fortes entre gênero e classe; entre etnia/raça e exploração do capital; entre a juventude desempregada e sua condição de classe, entre a questão ambiental e as lutas anticapitalistas, entre tantas outras.

Um outro modo de vida torna-se um imperativo societal da classe trabalhadora ampliada e do conjunto dos movimentos sociais. O MTST, por exemplo, vem mostrando que a arquitetura das cidades brasileiras é de destruição social. O MST há décadas luta pela terra, pela produção sem transgênicos e sem agrotóxicos e as comunidades indígenas combatem pela preservação de suas terras, contra as tentativas de Temer para liberar a exploração dos garimpos. Estas são as lutas vitais, ponto de partida para uma política radical de outro tipo.

Em síntese: não se criam alternativas orgânicas de um dia para outro. Vivemos uma fase de transição dentro do capitalismo, para uma fase ainda mais destrutiva. Vivemos uma fase de radicalização e aguçamento da destruição neoliberal e do saque financeiro. É por isso que o chamado “estado de direito” que hoje vigora é também um “estado de exceção”, só pode sobreviver exercitando os mecanismos de exceção. E faço o parêntese para lembrar que o “estado de direito” aqui mencionado nem de longe me parece o suprassumo societal.

Num quadro com essa moldura não posso pegar minhas ferramentas fragilizadas e jogá-las fora. Porque aí fico sem nada, de vez. Reparem que o capital não joga nenhuma de suas ferramentas, mesmo as piores, na lata do lixo. Aparelhos midiáticos, religiosos, repressores, estatais, parlamentares… Ele não joga nenhum desses aparelhos fora. Eles configuram o lócus da dominação burguesa. E as lutas sociais, operárias e populares têm fundamentalmente três ferramentas: seus sindicatos, seus partidos e seus movimentos sociais.

Os sindicatos têm um mérito: quando são de classe e defendem de forma intransigente suas categorias representadas. Essa é sua força, mas é também o seu limite. Os sindicatos dos professores, dos metalúrgicos, dos bancários, podem lutar pela defesa dos direitos de seus trabalhadores. Mas nem sempre conseguem pensar a categoria que representam como parte de um todo, da totalidade da classe trabalhadora. E frequentemente resvalam para uma defesa excessiva da categoria. A defesa da redução dos impostos da indústria automobilística é exemplo de sindicalismo com componentes corporativos, que defende a sua categoria, tem dificuldade de visualizar o conjunto.

Os partidos: qual sua força? Se formos ver PSOL, PCB, PSTU, todos dirão que são socialistas, anticapitalistas e desejam uma mudança profunda. Será difícil encontrar alguém que veja no capitalismo algo humano, social. Qual a força deles? Eles sabem, em linhas gerais, a direção da estrada que deve ser tomada. Qual o limite deles? Serem muito voltados à institucionalidade, calendários eleitorais, tempo de televisão, como ter mais voto, e se começam a ser criticados por radicalizarem, logo começam a fazer concessões, amolecer e por fim se enfraquecem. Isso não vale para todos, mas ninguém está imune a estes riscos. Basta crescer para ver como eles aparecem. A sua força é o projeto de futuro, a fraqueza a vida cotidiana, o dia a dia.

Os movimentos sociais: mostram muita força na vida cotidiana. O MST faz ações importantes, luta pela reforma agrária, faz ocupações, luta contra os transgênicos, pesticidas, consegue imaginar uma produção não destrutiva. O MTST, com uma pujante atuação hoje, tem uma questão muito concreta: a arquitetura da destruição joga os pobres para a vida na lata de lixo nas cidades. Só há um jeito de sair das “habitações” onde a população periférica é atirada: ocupar. E há outros movimentos, do passe livre, de juventude periférica que estuda, contra barragens, comunidades indígenas que lutam pela preservação da água, do solo, da natureza… É a força dos movimentos sociais. Não podemos esperar que, entretanto, ofereçam um desenho de sociedade do futuro, anticapitalista e socialista, salvo aqueles que têm uma escola, uma formação para tal, como o MST tem.

Essas forças todas não são excludentes e, sim, complementares. Buscar a organicidade entre elas, o que elas apresentam de decisivo, que é o sentimento que os assalariados pobres têm da vida cotidiana: quais as questões vitais do nosso tempo, que tocam na consciência da população trabalhadora. Você acha que a população está preocupada com a próxima eleição de vereador? Por favor. Se o voto não fosse obrigatório ninguém ligava. Não que eu seja contra, mas digo que é uma piada os partidos gastarem tanta energia disputando eleições e fazendo campanhas pra vereador, deputado etc. sem um programa anticapitalista que toque nas questões vitais.

Não adianta falar do socialismo em termos abstratos. É preciso falar das questões vitais de hoje, dando concretude à proposta socialista. Se não formos capazes de fazer isso, os movimentos sociais e lutas populares farão, mas num tempo maior. É o desafio, talvez, mais crucial.

Por fim, tratamos muito das dificuldades das esquerdas. Mas tem o lado de lá. Quem imagina que o capitalismo vai bem, obrigado, sem tensões, tampouco tem ideia do que fala. Porque a inconstância se tornou traço dominante do nosso tempo. Tudo que parece sólido pode derreter. Significa que não temos previsibilidade e certezas históricas. A única certeza é que “a história é a realização cotidiana de embates fundamentais entre classes sociais que se antagonizam”.

A ideia de que a classe trabalhadora acabou é risível. Não há nenhum burguês que não saiba que é burguês. O Lukács diria que é empiricamente constatável pela burguesia a existência do ser burguês e da condição burguesa de classe. O que não temos conseguido entender é que a contradição do nosso tempo é, por um lado, a contradição entre o capital social total versus a totalidade do trabalho social. É o desafio crucial. A totalidade do trabalho social é a luta dos assalariados, da classe trabalhadora no sentido mais preciso, a luta das classes trabalhadoras, também daqueles que trabalham, mas não propriamente assalariados, como camponeses, indígenas, ribeirinhos, e as lutas sociais dos movimentos dos negros, mulheres, ambientalistas, LGBT… Mas é preciso conectá-las com um olhar para além do capital.

O desafio está aí. Se não tivemos, no conjunto de ações, este olhar e estes pontos de conexão tudo ficará mais difícil.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/politica/13007-2017-o-ano-que-nao-deveria-ter-existido

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