Nenhuma bala é perdida

Por Vladimir Safatle

“Ele colheu o que plantou”. Foi com esta frase singela que o governador de São Paulo e candidato a presidente da República, Geraldo Alckmin, comentou os tiros que atacaram a caravana eleitoral de um ex-presidente. No que o vice-rei da província de São Paulo foi seguido por outros personagens da fauna política local a repetir análises no mesmo tom.

Reações desta natureza demonstram a explicitação de uma dinâmica de guerra civil que há tempos orienta a vida nacional. Ela vem semanas depois do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, que caminha calmamente para o esquecimento e para a blindagem dos envolvidos. Ela vem meses depois que manifestantes foram recebidos a bala em Brasília enquanto brigavam contra as “reformas” do atual desgoverno.

Mas analisemos o momento de honestidade de quem afirma, diante de balas: “Ele colheu o que plantou”. A ideia por trás é que os que acirram conflitos sociais, os que “jogam um lado da sociedade brasileira contra o outro” (como se fosse necessário realmente jogar um lado contra o outro, como se isto já não fosse a situação real desde há muito), não devem reclamar quando são acolhidos a bala. Ou seja, tudo se passa como se não houvesse diferença alguma entre a violência simbólica da política e a violência real da eliminação física do outro.

No entanto, esta diferença existe. Primeiro, devemos falar de violência simbólica porque a política é uma atividade violenta, ela sempre foi e sempre será. Ela é a atividade produzida pela consciência de que nossas sociedades são antagônicas, por isto ela mobiliza continuamente as divisões existentes na vida social, ela as nomeia enquanto os verdadeiros antipolíticos querem escondê-las para melhor perpetuá-las. Eles querem vender a paz, a necessidade de unidade enquanto continuam a guerra social e a acumulação a partir de interesses particulares. Em política, quem fala em unidade normalmente mente, pois a única unidade possível é aquela que reconhece o caráter originário da divisão.

Por isto, a política é indissociável do uso da força da pressão, da paralisação, da resistência, da não colaboração, da desobediência, da revolta. Isto, no entanto, não significa a eliminação física do outro. Significa lutar pela constituição de novas hegemonias e partilhas do poder. Significa destituir o poder de certos grupos e eliminar sua força, o que não significa atirar contra quem questiona seus privilégios (mesmo que este não seja exatamente o caso do ex-presidente Lula, diga-se de passagem).

E nem há, é sempre bom lembrar, linha direta alguma que vá da tensão simbólica em redes sociais à bala.

Neste sentido, as balas que correm nos nossos dias não são consequência de uma maior divisão e antagonismo da sociedade brasileira. Elas são, na verdade, a reação desesperada para tentar barrar tal divisão, para amedrontar os que começam a perceber sua impressionante resiliência. No Brasil, todas as vezes que a consciência dos antagonismos sociais aflora, balas começam a chover e discursos do tipo: “Quem semeia vento, colhe tempestade” retornam. Há um bestiário enorme de discursos desta natureza desde a República Velha: a mesma república da qual a classe política brasileira parece nunca ter saído. Neste sentido, a melhor resposta a tais situações é lembrar que não precisamos de mais unidade, precisamos de mais divisão, de parar de temê-la e começar a aceitá-la.

Já a estes que gostam de justificar a violência real ou que demonstram uma complacência explícita com ela, talvez seja o caso de lembrar que não há lei nenhuma da física que garanta que balas só correm da direita para a esquerda. Ao que se sabe, a fraca resistência do ar é a mesma dos dois lados. Quem naturaliza ou minimiza atentados, ajuda a abrir a porta para a naturalização de toda forma de reação. No entanto, não me parece que seja este o horizonte que queremos. Seria, por isto, mais prudente parar por aqui.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2018/03/nenhuma-bala-e-perdida.shtml?loggedpaywall

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