A volta do cabo Anselmo

Por Guilherme Boulos

Balta Nunes apareceu num encontro de comunicadores da Frente Povo Sem Medo, em junho passado, querendo “colaborar”. Aproximou-se dos militantes, pedia informações das lutas e queria visitar a Escola Florestan Fernandes, experiência pedagógica do MST (Movimento dos Sem-Terra). Seus métodos de aproximação foram descritos com detalhes em artigo recente publicado pela Mídia Ninja.

Na verdade, Balta Nunes é o capitão do Exército Willian Pina Botelho. A infiltração foi revelada após ele armar uma arapuca que resultou na prisão de 21 jovens no dia da manifestação dos 100 mil contra o presidente Michel Temer. Na ocasião, o capitão também foi “detido” mas, misteriosamente, não foi encaminhado para nenhuma delegacia. Em seguida, sua real identidade veio à tona, após reportagem do site Ponte.

Como comentou o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), temos o primeiro “cabo Anselmo do governo golpista”. Anselmo foi o mais famoso informante da ditadura militar (1964-1985), que infiltrou-se em movimentos de resistência e passou informações que levaram à prisão, tortura e morte de várias pessoas. Dentre as vítimas do cabo Anselmo esteve sua própria noiva, grávida de quatro meses, que ele entregou ao sádico Sérgio Fleury, por quem foi brutalmente torturada até a morte.

Parece que o governo Temer quer fazer o Brasil reviver essa história. São vários os sinais neste sentido. Primeiro, a reação do ministro da Defesa, Raul Jungmann, em relação à revelação do caso do capitão Botelho. Nada mais que o silêncio, resposta de quem não se sente na obrigação de prestar contas a ninguém. O Exército, por sua vez, declarou com a habitual transparência que irá “apurar as circunstâncias” do caso.

Diante da gravidade da situação é forçoso concluir que, ou Raul Jungmann tem responsabilidade direta pela ordem de infiltração ou, então, é um covarde. Em quaisquer das hipóteses, ele teria de ser imediatamente demitido. Mas não será, porque a diretriz de perseguição e ataque aos movimentos sociais vem daqueles que se apossaram do Palácio do Planalto.

Isso fica evidente com as atitudes de outras figuras do governo, como o general Sérgio Etchegoyen, alçado a ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), e o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes.

Etchegoyen, que passou a ter a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) sob seu comando, é conhecido por defender o monitoramento e a repressão dos movimentos sociais. Além disso, atacou o relatório da Comissão Nacional da Verdade, que investigou os crimes da ditadura, por envolver seu pai e seu tio, ambos membros do aparato repressivo do regime militar. Elevá-lo à chefe do GSI é um recado claro do governo Temer à sociedade.

Alexandre de Moraes assim que assumiu fez questão de deixar sua marca: “o MTST, ABC ou ZYH serão combatidos a partir do momento em que deixam o livre direito de se manifestar para queimar pneus, colocar em risco as pessoas, que são atitudes criminosas”. É ilustrativo que, em sua primeira declaração pública, o ministro tenha se dedicado a atacar o que considera como “atitudes criminosas” dos movimentos sociais.

Uma ferramenta perigosa para esta criminalização é a lei antiterrorismo, proposta pelo governo da presidenta Dilma, que terá de carregar esta mancha. Há movimentações claras no sentido de aplicá-la contra o direito de manifestação. Mais recentemente, Moraes espantou o país ao dizer que a segurança pública precisa de menos investimentos em pesquisa e mais em “equipamentos bélicos”. Não tem nenhum pudor de dizer a que veio.

O caso de Balta Nunes, permeado por esse contexto, aponta grave ameaça às liberdades democráticas no Brasil. Primeiro, vem um golpe parlamentar. Depois, um programa de ataque sem precedentes aos direitos sociais e trabalhistas. A cereja do bolo é a ofensiva contra a liberdade de manifestação e os movimentos sociais. Um governo sem sustentação no voto popular e com uma agenda de maldades tende a caminhar com naturalidade para as soluções autoritárias. Ao que parece, dias sombrios virão.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2016/09/1813284-a-volta-do-cabo-anselmo.shtml

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