E agora, PT?

Coluna do Guilherme Boulos na Folha de S. Paulo

13/07/2016

A eleição de hoje para a Presidência da Câmara dos Deputados põe à prova a capacidade da dupla Temer/Cunha em manter coeso o pântano parlamentar que sustentou o impeachment. Mas não só. Coloca em xeque também a condição do Partido dos Trabalhadores de fazer uma oposição minimamente respeitável a Temer.

O gesto desastroso de aproximação com a candidatura de Rodrigo Maia (DEM) e depois a escolha por Marcelo Castro (PMDB) mostram que o PT –ou ao menos sua direção majoritária– permanece incapaz de aprender com seus descaminhos.

Destaque-se a posição destoante de Tarso Genro e de parlamentares petistas dispostos a apoiar a candidatura de Luiza Erundina (PSOL) – certamente a de maior força simbólica contra Cunha e Temer – ou outra alternativa em sua própria bancada. Ao que parece até aqui são posições minoritárias. Saberemos com segurança no momento da votação, mas as movimentações em direção aos candidatos do DEM e do PMDB por si só já dizem muito.

O PT apostou durante 13 anos numa estratégia de conciliação com as forças políticas mais atrasadas em nome da “governabilidade”. E, embora essa aposta tenha sustentado três mandatos na Presidência da República, cobrou um preço elevado.

O preço foi não fazer o enfrentamento com um sistema político falido, mantendo os esquemas de sempre. Foi interditar o debate de mudanças estruturais na sociedade brasileira, como as reformas tributária, agrária, urbana e a democratização das comunicações. Foi chocar o ovo da serpente de uma direita raivosa que, logo que teve condições, atacou sem titubear.

O argumento era que se tratava do possível ante relações de força desfavoráveis, uma condição para a governabilidade –essa palavra que, de tão gasta, tornou-se um álibi universal. Pois bem. Mas e agora? As forças com que o PT se aliou romperam o pacto por decisão própria, aplicaram um golpe parlamentar e apearam a presidente petista do poder.

E agora, PT? Qual a justificativa para manter a política de conciliação a todo custo, precisamente com os partidos que deram o golpe?

Apoiar Rodrigo Maia para “derrotar Cunha” ou conseguir espaço na Mesa Diretora da Câmara faz Maquiavel corar de vergonha.

A alternativa seria Marcelo Castro por ter votado contra o impeachment. Ora, alguém acredita remotamente que, se eleito, Castro faria alguma oposição a Temer? Usaria sim de sua posição para inflacionar o apoio, do mesmo modo aliás que fez com Dilma.

O pragmatismo se orgulha de sua esperteza política. Mas há momentos em que ele é simplesmente burro. Se confirmar a posição, o PT demonstra que não aprendeu nada com este processo e que nem mesmo um golpe é capaz de tirá-lo da zona de conforto da conciliação.

Marx, no “18 de Brumário de Luís Bonaparte” cunhou o termo “cretinismo parlamentar”, tão adequado aos dias de hoje. Mas a passagem com que abre o livro parece ainda mais atual: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Formado em filosofia pela USP, é membro da coordenação nacional do MTST e da Frente de Resistência Urbana.

Publicado em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2016/07/1791354-e-agora-pt.shtml

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