DECADÊNCIA DO PROGRESSISMO E DAS TRANSFORMAÇÕES LIMITADAS

O dilema continental é revolução social ou caos com hegemonia do grande capital decadente e das direitas duras.

Por Narciso Isa Conde

20/03/16, Santo Domingo, RD.

O quadro de nossa América já não parece tão favorável para as esquerdas e forças transformadoras como no início deste século.

Os EUA e as direitas retomaram a ofensiva e conseguiram se entronizar com diversos meios e variadas modalidades nos governos e Estados de Honduras, Paraguai, Peru e Argentina, países inicialmente situados no campo do progressismo.

Além disso, aproveitando as limitações e deformações em cada processo, estão conseguindo mudar a seu favor a correlação de força na Venezuela, criando melhores condições para o retrocesso.

A isso se agrega que conseguiram corroer gravemente o moderado e debilitado regime do PT no Brasil, apontando também contra os governos transformadores do Equador e Bolívia com estratégias de desgastes limitadamente exitosas.

FATORES ADVERSOS E FALHAS

O fim das vantagens econômicas derivadas dos altos preços do petróleo, a redução das exportações sul-americanas para a China, Índia e outras potências emergentes; o aumento da corrupção estatal governamental (com suas especificidades em cada caso), a reprodução de métodos próprios da política tradicional, a longa coexistência traumática com as estruturas do grande capital que alimenta as agressivas direitas continentais, se combinaram no interior desses processos animadores para abrir espaço para a reversão contrarreformista e contrarrevolucionária.

A essa amálgama de fatores e de erros se soma a pior de todas as limitações: a ausência em suas instâncias condutoras da necessária determinação de passar das reformas mais ou menos avançadas à revolução com um forte sinal anticapitalista e socializante do poder e da economia. Sempre se disse – e agora volta a se confirmar – que processo de mudança que não se aprofunda se estanca, se enfraquece e termina retrocedendo.

TENDÊNCIA

Consumada recentemente a restauração neoliberal na Argentina, o vértice da contraofensiva reacionária se concentrou no Brasil, primeiro, obtendo mais concessões voluntárias do Governo de Dilma Rousseff dentro da lógica neoliberal, erodindo ainda mais a popularidade do PT e aproveitado ao máximo a implosão da grande corrupção (PETROBRAS-ODEBRECHT, ANDRADE GUTIÉRREZ etc), na qual evidentemente estão envolvidos altos dirigentes petistas, incluindo a presidenta e o próprio Lula.

Essa grande corrupção, mesclada com a política exterior do Estado brasileiro e do PT, com o cartel da construção ODEBRECHT encabeçando e acompanhada de eficazes assessorias eleitorais e não eleitorais do mercadólogo JOÃO SANTANA, hoje na prisão, se expandiu a outros governos do continente, entre eles, o de Mauricio Funes em EL Salvador, e aos atuais regimes da República Dominicana e Panamá, evidenciando-se fortes as cumplicidades em obras supervalorizadas. Na Venezuela e em Cuba, onde também operou a ODEBRECHT, não se apresentaram sinais de escândalos.

Quando os atores do deslocamento e da insubordinação contra os velhos e decadentes regimes neoliberais e contra as podres democracias representativas, não se decidem pelas revoluções, pela negação dos métodos da direita e da corrupção e privilégios estatais-governamentais, pela impugnação progressiva do capitalismo em crise e pela socialização progressiva em todas as ordens, finalmente ficam presos em suas redes e opções, as quais começam a operar introduzindo um neoliberalismo brando dentro da socialdemocratização, que termina facilitando a restauração de um neoliberalismo duro.

CASOS E CASOS DE ESTANCAMENTOS, MUDANÇAS E RETROCESSOS

Isto é urgentemente válido de considerar para a Venezuela, referente chave do processo continental.

O caso da Argentina, submetida de novo aos bombardeios neoliberais, é simplesmente dramático.

O do Brasil – todavia, pendente de desenlace – tende a sê-lo também, com o agravante de que Lula vem das esquerdas e foi um símbolo da resistência operária e popular que se tornou, junto a uma parte da cúpula de seu também emblemático PT, um administrador da ordem capitalista com uma melhor distribuição da renda nacional a favor dos pobres nas épocas de bonanças, acompanhada de lucros recordes em favor do capital financeiro brasileiro, e – o pior – em um líder altamente vulnerável às acusações de corrupção, imerso em escândalos espantosos que sujam os governos do PT.

A projeção dessa deplorável situação de Lula e do PT faz um dano enorme às forças autenticamente revolucionárias do continente. Golpeia a subjetividade dos povos, promove a desconfiança e facilita a ação das direitas retrógradas, sempre opostas a qualquer mudança fora de seu controle.

No Brasil também operam os conflitos subterrâneos entre os interesses dos consórcios imperialistas brasileiros e os estadunidenses, os primeiros próximos a Lula, os outros não. Isso explica o caso ODEBRECHT e o da PETROBRAS, empresas em expansão implacável, sem qualquer escrúpulo.

A isso é preciso somar os efeitos empobrecedores do pacote neoliberal de Dilma, respaldado por Lula e agregado aos graves problemas acumulados em vertentes tão sensíveis como saúde pública, educação, posse da terra e meio ambiente.

Em El Salvador, a mudança de comando de Funes para Sánchez Cerén, abriu uma nova oportunidade que parece estancada na ordem das mudanças estruturais necessárias.

A Nicarágua, que é algo muito especial, parece muito estável dentro de seus limites por tudo o que implica o projeto do canal interoceânico nas mãos da China Popular.

O Uruguai não ultrapassou o marco socialdemocrata dentro de seu capitalismo dependente apto, por sua escassa população, para oferecer certo bem-estar social à classe trabalhadora e ao povo em geral com bons parâmetros de liberdade e honestidade administrativa.

Em Cuba, a mudança dominante de imediato é para uma combinação de estatismo e capitalismo privado no contexto das boas relações com os EUA e abertura ao capital transnacional, caso não se altere esse fator por decisão imperial ou cubana. E esse modelo, não sendo substituído, tende a tirar essa nação de toda dinâmica revolucionária anticapitalista e a ofuscar as perspectivas socialistas do processo.

É claro, no entanto, que esse novo curso do processo cubano está em fase inicial, tanto no que concerne ao cenário político próprio como o estadunidense, onde as novas eleições anunciam outras tormentas, que desta vez não se chamam OBAMA. Porém, é cedo para julgamentos categóricos.

SEGUE O COMBATE

No entanto, a luta continua.

E se a virada para a revolução não surge das lideranças atuais desses processos, brotará das entranhas do povo trabalhador e a partir da consciência e organização criada no calor dos processos falidos.

O capitalismo não tem, todavia, outra resposta a sua crise que não seja finalmente mais neoliberalismo, o que volta a atiçar as resistências e contraofensiva populares.

Algo de maior envergadura pode ocorrer na Venezuela caso se complete o assalto ao poder pelas direitas. Em ambos os sentidos: na dureza das direitas e na radicalidade do chavismo revolucionário.

A radicalidade presente nas bases populares dos processos progressistas e transformadores entorpecidos não necessariamente se reverte mudando para pior os governos; isto sem negar as frustrações, atrasos e confusões que essas realidades poderiam gerar segundo as circunstâncias.

A onda de mudanças pode declinar ao nível do posicionamento dos Estados, porém não necessariamente a partir dos povos, sobretudo, quando a crise de decadência do capitalismo não para de aprofundar-se, deteriorando e caotizando as sociedades, carregando sobre a traumática ofensiva neoliberal legitimada fugazmente pelo estancamento e a degradação dos processos de mudança, sem contar com uma força revolucionária de relevo.

As dificuldades que implicam essas viragens a favor dos EUA e as direitas não deve ser minimizada.

Estes estancamentos, viradas à direita e retrocessos, junto a graves falhas éticas, fazem um dano enorme às forças autenticamente revolucionárias do continente. Golpeia a subjetividade dos povos, promove a desconfiança e facilita a ação das direitas retrógradas, sempre opostas a qualquer mudança fora de seu controle.

Precisam, portanto, ser enfrentados com firmeza e otimismo ao ritmo de seus desgarradores efeitos; detectando as possibilidades de contraofensiva a partir dos povos e redobrando os esforços por construir novas vanguardas e lideranças político-sociais consequentes como garantias de avanços sem retornos ao passado.

COLÔMBIA NO TREM DE PAZ

Por outro lado, o avanço dos acordos para a paz na Colômbia, outro cenário da luta de classe e da luta pela soberania, merece um acompanhamento especial de nossa parte.

Tal fenômeno já provocou mudanças não desprezíveis na dinâmica da política colombiana e tende a criar novas conjunturas e gerar novas exigências e iniciativas que podem impactar a realidade continental e mundial em direção positiva ou negativa; dependendo do tipo de variações que produza nas correlações de força e de poder no período de transição para a paz.

As FARC-EP – combinando com muito talento a firmeza estratégica e a flexibilidade tática – visam que a modalidade da transição sem confrontação armada preserve seu acúmulo histórico e sua capacidade de resposta insurgente enquanto não se consolide a viragem democrática em escala nacional, para que possibilite ampliar sua influência política e implantação social, garantindo avanços ascendentes sem retrocessos para uma nova Colômbia de paz duradoura, capaz de impactar positivamente a região. A ampliação do prazo para obter acordos sólidos e suas formas de implantação favorece esses propósitos.

A questão venezuelana e a colombiana tem uma estreita interação, sem que, todavia, possam fazer-se predições categóricas a respeito do que possa ocorrer em ambos os lados dessa fronteira nevrálgica neste mundo convulso.

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Teoria e Práxis – Observação: os grifos são nossos.

Publicado em: http://pcb.org.br/portal2/10772

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