A perversidade do sistema capitalista. O que fazer?

No capitalismo, como em qualquer sistema de concentração de poder, a repressão funciona “bem” para “benefício” de poucos.

Por Pertti Simula*
Da Página do MST
Analisando somente quatro características essenciais da nossa sociedade podemos concluir:
a) A essência do capitalismo é o capital, dinheiro. Quem tem capital ganha mais por ter capital. O dinheiro e lucro é o objetivo “sagrado” que justifica os meios. Isto resulta numa especulação e exploração dos recursos naturais e humanos (trabalhadores) sem limites, causando enormes injustiças econômicas e sociais.
b) O sistema político é de democracia representativa que significa delegar o poder político para representantes (presidente, governadores, senadores, delegados, vereadores) causando uma alienação do povo da tomada de decisões e de planejamento da sociedade. Com isto a democracia foi sequestrada e colocada a serviço do poder especulativo, econômico.
c) O trabalho é organizado de modo que quem tem capital consegue se tornar empregador e os trabalhadores são empregados. A relação entre empregador e empregado significa um conflito estrutural. O empregado trabalha numa alienação e submissão humilhante. O empregador vê o empregado como um mero recurso e despesa sem aspecto humano.
d) Na economia há uma obsessão de continuo crescimento enquanto que o meio ambiente e a natureza estão sendo destruídos com o consumismo, uso de agrotóxicos e monocultura, mineração e exploração energética. O econômico é um inimigo perigoso à natureza. Esta estrutura funciona como um poderoso formador da personalidade dos seres humanos e dos povos. Ela é uma máquina de lavagem cerebral forçando todos nós a aceitar e adaptarnos à essa estrutura sem questionamento.
Por um lado, o capitalismo, como de fato, qualquer outro sistema de concentração de poder, desperta e fomenta em todos nós as seguintes características de personalidade: alienação, competitividade, egoísmo, ganância, inveja, machismo e resignação. Além disto, o capitalismo fomenta especialmente nos indivíduos mais ricos a sensação de isolamento, mania de grandeza, cinismo e paranóia.
Por outro lado, a sociedade provoca e alimenta em nós sentimentos crônicos de inferioridade, insegurança, medo, humilhação, indignação, revolta, raiva, culpa, impotência… Mas a sociedade cultiva a sensação que justo estes sentimentos são sintomas de desequilíbrio e fraqueza, levando as pessoas a entender que não deveriam sentir assim.
Portanto, a sociedade causa sentimentos negativos e ao mesmo tempo os torna proibitivos. O sistema de poder é uma armadilha. Esta contradição interna, de não poder sentir o que está sentindo, forma um breque abafando nossa coragem, iniciativa, criatividade e força para podermos reagir, nos unir e organizar contra injustiças e desenvolver uma sociedade justa, igualitária e solidária.
Esta estrutura fomenta em nós justo aquilo que há de mais perverso resultando em doenças psíquicas e físicas, machismo, dependência de drogas e outros, exclusão social, criminalidade, extremismo religioso, terrorismo e guerras. Nos séculos XV – XVII os países europeus colonizaram e escravizaram praticamente todos os outros continentes com armas, crueldade e genocídios. Hoje a colonização é mais sutil através das empresas multinacionais.
Os países colonizados que se libertaram no século passado, hoje competem entre si para atrair os donos do capital investirem nos seus países para serem explorados em sua mão de obra e em seus recursos naturais. Antes o trabalhador era um escravo, mas pelo menos um bem do patrão. Hoje o empregado é um mero item na sua planilha de custos.
Os problemas e o sofrimento dos povos causados pelo capitalismo no mundo tem se acentuado fortemente nas últimas três décadas. As conquistas na área da segurança social têm sido sistematicamente desmontadas. Os postos de trabalho estão sendo precarizados. O jovem tem uma perspectiva sombria para seu futuro com tédio, entretenimento vazio e falta de finalidade de vida.
No capitalismo, como em qualquer sistema de concentração de poder, a repressão funciona “bem” para “benefício” de poucos. As tentativas de construir coletivos e sociedades com princípios socialistas têm tido muita dificuldade de se propagar e suceder. Um dos fatores é que todos nós estamos viciados na repressão de modo que nós a aplicamos aos outros e nós mesmos por nós mesmos. Este hábito de repressão é uma armadilha que o sistema de poder conseguiu implantar no nosso modo de sentir, impedindo até hoje a nossa libertação.
Os poderes não querem que o povo possa sentir conscientemente indignação, injustiça, revolta, coragem, amor e união. Uma reflexão sobre a doença do poder Querer usar todos os seus meios para fazer bem para os outros é um ato de amor. Já, querer ter poder para si,  é um sintoma de desequilíbrio mental, que tem muitas vezes sua origem no sentimento numa infância de falta de amor, portanto, num sentimento de falta de existência.
O poder dá uma sensação de que agora eu existo. O poder é como uma droga alienante, quanto mais poder  se consegue , mais aumenta a necessidade de alcançá-lo ainda em doses maiores causando um circulo vicioso, uma dependência. Por isso a sede de poder aumenta sem limites.
Ganhando poder o ser humano pode exigir dos outros. Exigir é um ato de repressão, limitação da liberdade do outro, e, por tanto, da responsabilidade dele, é em ultima instancia uma tentativa de limitar a consciência do outro. O poderoso acaba inevitavelmente se reprimindo a si mesmo, sendo que tudo que fazemos com o outro, fazemos dentro de nós mesmos no nosso modo de sentir e pensar (Sócrates, filosofo grego 450 a.C.).
O poderoso se sente maior e mais importante que os outros (arrogância). Ganhar poder alimenta a mania de grandeza nele. O poderoso é bajulado por outros, e isto o aliena ainda mais da realidade. O sistema tende levá-lo para corrupção e recorrer a ditatura.
É interessante como no hospital psiquiátrico os doentes se acham gente grande como Napoleão, Cristo, Deus etc. O psiquiatra, psicanalista finlandês Martti Siirala falou numa entrevista que quanto mais se sobe nas escadas de poder mais se encontra gente fora da realidade (doente). Disse Lorde John Acton, um historiador liberal inglês do século XIX: “o poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe de maneira absoluta. Os grandes homens quase sempre são homens maus”.
O que fazer?
Na questão estrutural, devemos construir uma sociedade socialista com bases na solidariedade e na igualdade entre todos e todas, deve ter uma organização do poder maximamente horizontalizada (o principio geral do MST). A democracia participativa (direta) deve ser a essência da democracia o povo votando sobre todas as decisões importantes diretamente. Ao lado disto, a democracia representativa será mantida para escolher os representantes que cuidam da implantação das decisões. Isso requer um processo longo de desenvolvimento humano e social, mas é uma condição necessária para as pessoas crescerem na consciência humana, social,
política, econômica e ecológica.
A questão psíquica da lavagem cerebral pelo capitalismo é um fato e desafio bem conhecido e comentado. Conforme o conceito capitalista o ser humano tem pela sua natureza as seguintes características: Ele é competidor querendo sempre submeter os outros (darwinismo). Ele é conquistador, sempre querendo mais poder (ganância). Ele é racional, e lutando pelos seus objetivos está fazendo bem para a sociedade em geral (“mão invisível”, Adam Smith, economista inglês, século XVII).
Já no socialismo, o ser humano tem sua base na solidariedade, igualdade, justiça social e fraternidade. O desafio é conseguir lidar com esta “bagagem” doentia da estruturação psicológica das nossas mentes pelo capitalismo, e gradativamente tornar o nosso hábito de sentir, pensar e agir mais de acordo com solidariedade, igualdade e valorização humana. Em outras palavras precisamos conscientemente e continuamente desfazer a lavagem cerebral que o capitalismo nos impôs, e criar novos hábitos de sentir, pensar, agir e conviver.
Há uma contradição total entre estes dois conceitos sobre o ser humano. Parece que temos carência de saber como lidar com esta contradição. Para isto é necessário criar um conceito novo sobre o ser humano, que por si só fomenta o sentimento socialista, quer dizer solidariedade, liberdade e igualdade.
Um conceito que funciona no sentido de incentivar o nosso modo de sentir para a responsabilidade coletiva, coragem, ética e igualdade. Devemos introduzir gradativamente no coletivo uma abordagem que coloca o foco na valorização humana e social, por exemplo, os seguintes passos:
1. Desaprenda gradativamente as rotinas repressoras de educação, motivação e gestão de recursos humanos. Isto resulta num despertar de conscientização e do sentimento de respeito e valorização mútua, portanto, num aumento da alegria e solidariedade.
2. Conscientize-se sobre a nossa total liberdade para sentir e a liberdade limitada para agir. Desenvolva aceitação e respeito pelo modo de sentir dos outros e de si mesmo. O poder de manipulação emocional através de descontentamento, humilhação ou raiva é reduzido drasticamente. O poder psicológico da repressão perde a sua força. Isto vai levar ao aumento do sentimento de liberdade e responsabilidade, portanto, alegria e união do coletivo.
3. Desenvolva o hábito de reforçar a consciência das riquezas humanas. Não faça critica ou avaliação sobre uma pessoa. Avalie o que ela faz com respeito e reforçando a consciência das riquezas dela. Desenvolva a compreensão sobre os nossos empecilhos internos. Haverá um sentimento de valorização mútua entre os membros do coletivo, o que aumenta a união, motivação e coragem.
4. Introduza a percepção de que somos todos espelhos internos uns dos outros em características humanas. Tudo que vejo no outro está em mim também, obviamente em graus e modos diferentes. Esta consciência aumenta a sensação de igualdade, reduz a critica, a classificação (“pior/melhor”), acusações e conflitos pessoais e fomenta cooperação e o desenvolvimento humano pela autoconsciência.
5. Conscientize-se de que tudo o que eu faço ao outro, eu faço dentro de mim, a mim mesmo. Assim, debochar, humilhar, reprimir, explorar e agredir perde “a graça” na medida em que o coletivo percebe que o agressor está sendo a sua primeira e principal vitima. Isto aumenta o sentimento de segurança, cooperação e fraternidade.
6. Conscientize-se de que injustiça e maldade são curados apenas com justiça e amor. Não dê poder para o problema, não coloque o foco no erro, fortalece o bem. Isto vai reduzindo a vontade de julgar, reprimir, brigar e agredir aumentando o sentimento do amor e respeito mútuo.
7. Desenvolva uma estrutura social em que todos participam cada vez mais na discussão e tomada de decisões sobre assuntos importantes para promover a responsabilidade coletiva e a solidariedade, assim as ações destrutivas são prevenidas e impedidas pela responsabilidade coletiva. A participação aumenta a responsabilidade coletiva, a solidariedade e igualdade.
Este é um processo de transformação do modo de sentir, pensar e agir. A candidata para presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton revelou a condição de se ter poder: “Não estou interessada em ideais que parecem boas idéias no papel, mas que nunca irão funcionar no mundo real.” (Folha de São Paulo 22.01.2016) A posição dela é manter tudo como está, assim não vamos ter qualquer progresso real nas dimensões humana, social e ecológica.
Mais do que nunca a assertiva de Che Guevarra é necessária: “Vamos ser realistas e tentar o impossível.”
* Pertti Simula é psicanalista e Mestre em Ciências
A abordagem usada no texto, chamada de método conscientia, é o resultado de um trabalho de 30 anos unindo observações práticas das dimensões do coletivo, cooperação, campo terapêutico e das relações humanas. O desenvolvimento da metodologia está sendo realizado em grande parte em cooperativas, escolas e institutos de formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra do Brasil – MST, além da participação de educadores de escolas na Finlândia e Suécia.

Fonte: http://www.mst.org.br/2016/02/15/o-nosso-sistema-de-poder-e-perverso-o-que-fazer.html

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